Nossa localização

O Ateliê Acaia está localizado na zona oeste de São Paulo, área em que se localiza o Ceagesp, grande entreposto alimentício da cidade.

Nos arredores do Ceagesp existem duas favelas e um Cingapura que, no total, somam 960 famílias vivendo em condição de risco.

Nas duas favelas não há sistema de esgoto nem luz elétrica regular. No Cingapura as relações sociais são desestruturadas e o tráfico domina as áreas livres.

Nosso público

São pessoas provenientes da Favela da Linha, da Favela Japiaçu/Nove e do Cingapura Madeirite. O Acaia recebe, no período da manhã, 80 crianças entre 7 e 11 anos; à tarde, 120 adolescentes entre 12 e 18 anos incompletos; e à noite, 60 adultos acompanhados de seus filhos pequenos (abaixo de 7 anos).

Funcionamento

No Acaia eles participam das oficinas abertas que funcionam todos os dias (marcenaria, artes e biblioteca), ou das oficinas com aulas ministradas uma ou duas vezes por semana, que são capoeira, dança, música, culinária, costura, vídeo, animação, xilogravura e tipografia, além de oficinas de alfabetização e leitura. Podem também ficar observando e andando pelo espaço do Acaia e às vezes demoram-se na escolha de em qual ambiente se envolver. As salas do Acaia (música, vídeo, tipografia e costura) têm uso livre para aqueles alunos que participam das aulas. Assim, durante a semana, quando o professor não está presente, podem exercitar seus conhecimentos.

O Ateliê Acaia é um espaço de aprendizagem em seu sentido amplo, respeitando o caminho emocional de seus frequentadores . Assim, a oferta das oficinas e a disposição do espaço físico e psíquico buscam possibilitar a estruturação interna e o desenvolvimento de habilidades que auxiliem em uma inserção social saudável. Conta com atendimento psicológico duas vezes por semana, além de encaminhamentos para consultórios em casos de necessidades mais específicas.

Encaminhamentos médicos, fisioterápicos e jurídicos são também freqüentes e têm como embasamento o acesso a condições de cidadania. No decorrer do ano de 2006, o Ateliê Acaia deu prosseguimento às suas atividades internas, às parcerias com os ambientes profissionais com estágios, monitorias e exposições, e fortaleceu o trabalho junto às favelas e ao Cingapura.

O Ateliê Acaia, na intenção de melhorar sua tarefa de inclusão sociocultural, estruturou seu trabalho em dois eixos de funcionamento: Acolhimento e Autonomia.

Acolhimento

O trabalho de Acolhimento acontece em seu grau máximo no período da manhã, que recebe predominantemente crianças entre 7 e 11 anos. Nesse momento, o espaço e as atividades do Ateliê estão voltadas para a estruturação interna das crianças e desenvolvemos uma rotina que tem início com a chegada dos meninos e meninas por volta das 8h. Eles são esperados com o café da manhã e prosseguem com brincadeiras e atividades de jogos e leitura.

Das 9h30 às 11h participam das oficinas, incluindo atividades de acompanhamento escolar na biblioteca. Aos poucos encaminham-se para o banho e depois aguardam a hora do almoço, que é servido às 12h. Em seguida vão para a escola acompanhados pelos professores do Ateliê. Esse funcionamento, nos moldes de um grande quintal das antigas casas de família, modela tonalidades de encontros, de voz, de afagos e agressividades.

Autonomia

O período vespertino é estruturado de forma a promover e consolidar o que denominamos Autonomia. Momento de ganhar caminho para o mundo, com todas as suas exigências.
Assim, a tarde divide-se entre a turma recém-chegada do período anterior e os meninos e meninas de 14 a 18 anos incompletos que ingressam pela primeira vez no Acaia. Podemos dizer que, dos 11 aos 13/14 anos, as crianças são gradativamente preparadas, com cobranças mais firmes dos professores no aprimoramento de suas habilidades, exigindo maior concentração. São oferecidas atividades que requerem mais conhecimento formal e maior técnica, como vídeo e animação, tipografia, culinária avançada. A partir dos 14 anos os alunos são inseridos nos programas que promovem a Autonomia. São eles: estágios, cursos e aulas específicas fora do Ateliê, vivências em ambientes profissionais como cozinhas, buffets, marcenarias e movelarias ou sets de filmagens. Com o Ateliê cada vez mais organizado em suas diversas áreas, contando com equipamentos de ponta, decidimos abrir a possibilidade para que profissionais possam realizar trabalhos em nossas oficinas.

A contrapartida necessária é a participação de alguns alunos nessas atividades. Assim, a tipografia e a xilogravura receberam artistas que desenvolveram uma agenda, uma capa de CD e convites de casamento, com letra e imagem em parceria com os meninos. Os jovens engajados no vídeo participaram de gravações internas e externas e participarão da filmagem de um vídeo de animação para o qual firmarão compromisso de um ano e receberão bolsas-auxílio. Todas as etapas serão realizadas em conjunto: leitura e preparação do texto, gravação e edição.

Todas essas ações visam inserir os meninos e meninas nos ambientes sociais e de trabalho bem-estruturados emocionalmente e instrumentalizados tecnicamente para seguirem e se aperfeiçoarem em suas despertadas aptidões.

Noite

Durante três noites por semana os adultos freqüentam o Acaia em quatro atividades. As mães geralmente participam do bordado e da costura. Esta atividade nasceu para acolher as mães que, muito desorganizadas, não conseguiam nos relatar a vida de seus filhos. Assim, em um ambiente descontraído, começaram a falar e a se estruturar. Homens e mulheres participam da marcenaria. A sala de música é utilizada para ensaio de um grupo de jovens. Uma aula de design de móveis acontece uma vez por semana e introduz questões mais técnicas de desenho e computação gráfica.

A Favela

O trabalho realizado nas favelas ganhou consistência e culminou com a compra de um barraco na Favela do Nove no final de 2006. Neste ano de 2007 estamos estruturando esse “Posto do Acaia” realizando atividades quatro vezes por semana. Contamos já com uma pequena biblioteca que permite a atividade de narração de histórias, um ateliê de artes, materiais básicos de marcenaria e um espaço para conversas e bordados. O atendimento a essa população no local em que vive tem relevância dupla: atinge núcleos familiares mais desestruturados, que não se autorizam ou não são autorizados pelas famílias mais organizadas a freqüentar o trabalho no Ateliê Acaia, e funciona como Pré-Acolhimento.

A estruturação interna das crianças começa mais cedo com jogos, brincadeiras e leituras, iniciando-se a construção das relações com o ambiente externo (higiene, colaboração grupal, organização das moradias etc).

Também são atendidas crianças que não conseguiram vaga no Acaia.

Grupo

Finalmente, a formação de dois grupos, XiloCeasa e Artesãs da Linha Nove traduzem o que podemos chamar de finalização da Autonomia.

O grupo XiloCeasa fez capas de livros da Editora 34 e da Cia. das Letras, ilustrou a edição comemorativa dos cem anos do Suplemento Literário de Minas Gerais, publicou ilustração na revista Carta Escola, participou de vários trabalhos externos, como no Sesc Pompéia/PUC, de monitorias no Instituto Tomie Ohtake, e de uma Exposição na Galeria Favo.

Em abril de 2007, cinco alunos da XiloCeasa e da Tipografia estiveram em Poços de Caldas (MG) em um trabalho conjunto com o Instituto Moreira Salles e participaram da Virada Cultural de Santos. Ainda para 2007 estão previstos outros intercâmbios culturais, em Nova Olinda (CE), em São Francisco Xavier (MG), e ainda duas viagens internacionais para o Canadá e a Inglaterra. Em conjunto com o grupo das Artesãs, farão uma exposição no Sesc Pompéia em outubro de 2007.

As Artesãs da Linha Nove, nome que aglutina as duas favelas atendidas pelo Ateliê ("Linha" e "Nove") e que respondem a encomendas nos últimos dois anos, viram seu trabalho crescer, ganhar muito em qualidade e organização, e tornaram-se aptas a alçar vôos cada vez mais autônomos. São mulheres que vão pouco a pouco migrando de suas atividades anteriores (catadoras de recicláveis, faxineiras ou mesmo pessoas que se encontravam realmente à margem) para tornarem-se exímias bordadeiras e costureiras.

Podemos dizer que a formação desses grupos que, esperamos, também aconteça em outras áreas (música, vídeo, marcenaria) caracterizam outras possibilidades de finalização da Autonomia. Desta forma, acreditamos estar num caminho importante no entendimento e no encaminhamento de ações voltadas para esse imenso contingente de brasileiros que, sistematicamente,tem estado à margem do processo civilizatório e que apenas aguarda oportunidades.



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